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Amizade rompida - O dia da queda de Anärion.

Sentado em uma grande pedra que dava vista para o mar estava Ecthelion ele conversava alegremente com um orc que estava em pé ao seu lado. Ambos falavam sobre aventuras passadas e pareciam se divertir. Subitamente o orc mudou o tom da conversa.

– É uma ilha fascinante. – O orc começou a dizer. – Mas não foi por isso que eu vim.  A notícia que trago ameaça a beleza deste lugar.

O semblante do orc ficou sério. Ghontar havia crescido nas ilhas da guerra. Mas saíra de lá antes mesmo de participar de uma das batalhas que não raramente ocorrem naquele lugar. Talvez por isso não nutrisse sentimentos ruins contra elfos, humanos ou anões, que invadiram as ilhas que antes eram de domínio exclusivo dos orcs e para lá levaram a guerra e destruição para o povo orc.

– O que vem nos informar amigo? – Perguntou Ecthelion.

– Os descendentes dos orcs, que há muito habitaram esta bela ilha, antes mesmo do primeiro elfo a reivindicar pela força, preparam um ataque. – Respondeu Ghontar.

– E quem os comanda?

– Três elfos do seu povo. Pelo que ouvi foram expulsos daqui por terem navegado até a Ilha Proibida.

Ecthelion perdeu o sorriso em sua face. Neste momento um terceiro elfo surgiu. Ele estava ricamente trajado e levava em sua cabeça uma bela coroa feita de prata e com esmeraldas no formato de folhas como ornamentos. Era o rei dos elfos de Anärion e sorria para o orc. Quando o orc lhe alertou o que acabara de contar a Ecthelion o rei ficou sério.

– Não posso acreditar no que ouço, mandei aqueles elfos para a morte. Como podem agora retornar com um exército para me confrontar em meu reino.

– Pois de algum modo sobreviveram. – Disse Ghontar. –E chegaram até a Ilha Proibida onde encontraram os filhos dos orcs expulsos de Anärion.

– Mas isto foi a séculos.

– Eu sei senhor, mas antigos ódios não são facilmente esquecidos. Os orcs querem o que lhes pertenceu. E são muitos.

– Compreendo. Agradeço sua mensagem Ghontar.

– Se me permite um conselho senhor, – disse o orc – não ofereça resistência. Ouça o conselho do Mago Verde e abandone essas terras, os homens do sul os acolherão até que possam rumar ao norte e retornar ao seu povo. São muitos os que virão para lutar, eu pude ver com meus próprios olhos.

– És um bom amigo Ghontar, mas jamais abandonarei meu lar. Sei que os inimigos são do seu povo, mas qualquer um que se erga contra o reino de Anärion sentirá a fúria de nossas espadas.

– Senhor eu tentei de tudo para que essa guerra não ocorresse, mas os orcs querem o que lhes foi tomado. O que estou fazendo é alertar, sabes que estarei do outro lado da batalha e não quero cruzar espadas com amigos.

Os olhos do rei ficaram em fúria.

– Já trouxe sua notícia, não haverá rendição. Lutaremos e se não pode controlar os ímpetos de seus semelhantes você deve partir. Não serei eu um elfo tão baixo a ponto de ferir um amigo, mas no momento em que sair de Anärion será considerado inimigo.

Ghontar abaixou os olhos, estava triste. Fez uma reverência ao rei dos elfos e partiu. Ecthelion o seguiu até seu navio.

– Eu não direi a você que tentarei mudar os pensamentos de meu rei. Como comandado devo ficar e lutar pela glória de Anärion.

– Não há glória na morte Ecthelion. Eu jamais quis estar em lado distinto do seu numa batalha, mas sabíamos que este momento chegaria. Espero que Finihenn, o Mago Verde, possa convencer o senhor dos elfos. Se isso não ocorrer prefiro não lhe encontrar no campo de batalha. Adeus meu bom amigo.

Elfo e orc deram um longo abraço. E então se separaram. Um navegava de volta a Ilha Proibida o outro ficava em terra esperando o dia em que seu antigo companheiro voltaria, mas dessa vez junto a um exército de inimigos.

Ghontar retornou a Ilha Proibida e quando lá chegou os orcs já se preparavam para o ataque, um gigantesco exército de orcs embarcava em muitos navios que estavam atracados ali perto. O orc parecia triste, ele estava no comando de um destacamento de dois mil orcs, seus capitães se aproximaram e lhe perguntaram se deviam partir, Ghontar pediu que aguardassem todos embarcarem, eles fariam a retaguarda da frota naval. Os orcs finalmente partiram com inúmeros navios repletos de guerreiros na direção da ilha de Anärion. Por toda viagem Ghontar parecia não se esforçar para chegar, mas era inevitável e mesmo com atraso ele finalmente avistou o destino.

Era noite e podia-se ver fogo no horizonte vindo da ilha. Vários navios se aproximavam cada vez mais das ilhas, corpos começavam a bater nos cascos do navio onde Ghontar estava e ele assistia aquela cena com tristeza. Quando o barco de Ghontar se aproximou ele viu os portos de Anärion em chamas. Toda a beleza da ilha agora estava reduzida a cinzas. Ao desembarcar percebeu que a ilha já havia sido tomada, um de seus capitães veio ter com ele.

– Senhor por que não desembarcamos antes, a batalha acabou. – Disse o capitão.

"Essa não era minha batalha". Pensou Ghontar, mas guardou isso pra si. Somente fez um gesto e deixou o capitão falando sozinho. Foi então que o viu Ecthelion. O elfo estava numa embarcação pequena, junto dele havia outros elfos, elfas, crianças e velhos, tentavam fugir da ilha. Seu capitão vira a mesma coisa e já começava a dar ordens de ataque quando Ghontar o mandou silenciar.

– Deixe-os partir. – Disse Ghontar.

– Mas senhor...

– Quieto, não haverá sangue em minhas mãos. A ilha já foi tomada, temos nosso prêmio. Obedeça minha ordem. Agora vá, tenho algo a fazer.

O capitão ficou contrariado, porém não ousou desafiar seu comandante. Ghontar caminhava no meio da destruição, havia corpos de elfos jovens, imaturos ainda para o combate, elfas que morreram na tentativa de fugir com seus filhos, muitos guerreiros elfos e também orcs. Aquela cena lhe causava repulsa, lembrou-se das ilhas da guerra e de tudo que lá sofrera. Mas não viera até a ilha para isso, sua missão estava além. Pegou um cavalo que estava perdido no meio da batalha e cavalgou floresta adentro, rumava para o centro da ilha.

Foram algumas horas até que o cavalo exausto o deixou nos pés da grande árvore que servia de palácio ao rei dos elfos. Ghontar contemplou com olhos tristes aquela magnífica obra natural e élfica. Começou então a subir os degraus habilmente talhados na copa da árvore, subia devagar. Muitos orcs estavam saqueando o palácio e não adiantaria detê-los, era o prêmio pelos anos de exílio. Mesmo assim isso deixava Ghontar irritado, tantas vezes viera ao grande palácio como convidado e o ver assim deixava-o inquieto. Subiu em silêncio, no caminho pensava em Ecthelion e no último olhar que trocaram. Podia sentir o ódio no olhar que seu antigo amigo elfo lhe deu. Lágrimas vieram em seus olhos, conseguiu as conter.

Chegou então à plataforma real, mais orcs saqueavam o local, ele passou por todos sem dizer uma palavra. Já podia ver seu objetivo. Estava ali bem a sua frente, as vestes estavam rasgadas, seu corpo estava espetado por inúmeras flechas. Havia um profundo corte em seu peito. Ghontar agachou-se, arrancou as setas e ergueu em seus braços o corpo do último rei de Anärion. Fazia agora o caminho de volta quando notou que um dos saqueadores usava a coroa do rei. Ghontar parou e ordenou ao orc que a devolvesse, viu também pendurada na bainha do orc a espada do rei dos elfos. Quando o orc ouviu a ordem de devolver a coroa começou a rir e disse:

– Estás apaixonado pelo elfo? Por acaso irás foder com o cadáv...

Nunca chegou a terminar de dizer as palavras. As mãos grossas de Ghontar envolviam sua garganta e apertavam com tal violência que sangue escorria por seus dedos. Quando finalmente o orc parou de se contorcer, Ghontar o jogou de lado. Tomou-lhe a coroa e a espada, novamente ergueu o corpo do rei e partiu. Os outros saqueadores o olhavam, mas nenhum ousou dizer algo.

Quando deixou a árvore, o orc procurou outro cavalo, cavalgou levando consigo o corpo do rei. Quando finalmente parou o sol já se encontrava no centro do céu. Parou em uma colina muito verde, ali não havia sinais de batalha. Cavou por hora, quando terminou suas mãos estavam feridas, o sangue se misturou ao barro e formou uma crosta. Despiu o corpo do rei e o banhou num riacho ali perto, vestiu-lhe a armadura novamente, ou o que sobrou dela. Não era a forma mais digna para o fim de um rei, mas era melhor do que ficar exposto aos abutres e saqueadores. Recolocou a bela coroa em sua cabeça e o deitou no buraco que acabara de cavar. Finalmente as lágrimas não puderam mais ser contidas. Cobriu o corpo com terra. Somente quando terminou é que percebeu que se esquecera da espada.

Brecha (Parte1)

"Isso já faz muito tempo, foi quando era jovem aprendiz. Acordei num campo infinito, sem saber onde estava e nem porquê. O céu parecia pintado, azul firme e intenso com um sol poente quase. Olhei pra longe e esfreguei os olhos. A sensação de leveza. Comecei a caminhar pelas colinas que nunca acabavam, e na terceira parei. Ao longe um rochedo cinzento condensava as nuvens em seu topo gelado, e nada se podia ver em qualquer dos horizontes alem de colinas. À frente muitas milhas estava aquele rochedo, único desafiando as alturas entre tantas colinas. Poderia estar no norte. Talvez próxima de Cristalya ou em Turinnia. O sol poente parecia imóvel e o frio e o vento eram constantes. Decidi seguir até aquele rochedo e procurar algum vilarejo, ou informação de onde estava,  antes que anoitecesse precisava acampar, e encontrar comida. Desci até um vale repleto de vegetação e árvores retorcidas e montei minha tenda na clareira. Olhei o mapa e nada parecido havia dentro dos limites conhecidos por nós elfos. Percebi que não sentia fome ali. E o sol não se pôs(...)"

--Yulari, elfa anciã

O incidente na Ilha de Pedra

A pequena Ilha de Pedra fica ao norte de Khorus, recebeu esse nome pois ali somente montanhas de pedra dura se formaram, não há vegetação e se não fosse por uma fina linha litorânea o lugar seria nada mais do que uma montanha afundada no mar cujo cume está acima da superfície das águas. Um local tão inóspito raramente seria alvo de conquistadores, então permaneceu intocado por muitas eras.

Mas o destino da ilha estava para mudar quando uma expedição de anões vindos das montanhas do continente ao norte da Ilha de Pedra ancorou nas proximidades do local. Ali se admiraram com a peculiaridade do lugar e nas investigações que faziam no local encontraram uma reentrância que revelou uma espécie de túnel que prosseguia fundo, até o coração da montanha. Resolveram adentrar e quando já haviam se afastado muito pelo túnel descobriram que o subsolo da ilha escondia uma gema acinzentada e que emitia um fraco brilho que jamais fora vista por nenhum deles. Coletaram algumas amostras e partiram.

Retornaram para suas cidades sob as montanhas ao norte da ilha. Ali os melhores estudiosos anões fizeram testes com as gemas tentando descobrir suas propriedades, todos os testes não determinaram nada. Um artesão que participou da expedição, especializado na arte de fazer estátuas, decidiu lapidar uma das gemas e para sua surpresa havia somente uma fina camada cinza e por baixo revelou-se uma pedra de cor azulada que emitia uma luz intensa. Maravilhado com a pedra ele a implantou no peito de uma de suas obras, a admiração só aumentou quando descobriu que a gema deu vida a estátua. Revelou o ocorrido aos estudiosos e todos se sentiram animados com a descoberta. O senhor da cidade ordenou que fossem selecionados em seu povo os melhores artesãos e os melhores mineradores. Estes seriam levados até a ilha e ali deveriam construir uma cidade e iniciar uma fábrica de construtos que seriam animados com o poder das gemas. Assim foi feito e dez navios repletos de colonizadores partiram para a Ilha de Pedra. O artesão que descobriu sobre a gema também partiu, sobre a honra de ser o senhor da nova cidade.

Por algum tempo notícias chegavam constantemente na cidade, os mais nobres encomendavam construtos para servir-lhes e a nova empreitada daqueles anões estava em pleno crescimento. Mas era necessário um tempo até que tudo pudesse ser construído e enviado aos compradores. Foi decidido que a primeira remessa levaria um ano para ser enviada. Aqueles que já haviam negociado não se importaram com a demora, aguardavam com imensa expectativa por aquilo que pagaram. Ao longo do ano mensagens chegavam a cidade dos anões informando o progresso, informavam também sobre inúmeras riquezas que foram encontradas nas ilhas, a penúltima mensagem trouxe uma informação que alegrou a muitos, as estátuas estavam todas prontas, eram centenas, e receberiam as gemas mágicas em pouco tempo. A última mensagem trouxe a notícia que as gemas haviam sido colocadas e que tudo saíra como o planejado, os construtos estavam prontos para serem enviados, um barco deveria partir para a cidade na próxima semana. Depois desta nenhuma mensagem chegou. Certo dia um barco foi avistado chegando na cidade, vinha devagar, somente empurrado pelo vento. Os senhores ansiosos preenchiam o porto esculpido na montanha para receber os anões e os seus novos construtos. Mas o que viram chegar foi um barco manejado por menos de uma dúzia de anões, todos feridos, alguns morreram antes mesmo de aportarem. Algo havia saído errado, os construtos quando viram ser a maioria se voltaram contra seus mestres, o que se passou a partir daí eles se negavam a falar, somente repetiam insistentemente "todos mortos".

Desde então a Ilha de Pedra caiu no esquecimento. Mas sempre alguém passa a história deste incidente adiante, dizem que até hoje os construtos ainda estão por lá, abrigando a cidade no coração da montanha que os anões deixaram para trás e protegendo inconscientemente os inúmeros tesouros que foram abandonados quando os seres de pedra se viraram contra seus criadores.

A Senhora dos Vermes

"A noite começava a chegar e o calor dos desertos dava lugar a um frio insuportável. Eu era jovem e estava coberto de ambições, viajávamos em um grupo de quatro aventureiros destemidos. Nos arriscávamos naquelas areias atrás de um dos inúmeros tesouros que Sharionn oculta. Mas na escuridão de nada mais adiantaria caminhar, precisávamos parar. Montamos acampamento e repartimos algumas provisões, dividimos a guarda naquela noite e os deuses nos agraciaram com um descanso tranquilo. Mas eu diria que aquela foi a calmaria antes da tempestade e aposto que meus antigos companheiros diriam o mesmo se tivessem essa oportunidade.


Quando a manhã chegou levantamos acampamento, foi então que tudo começou. Um som de algo se arrastando foi ficando cada vez mais alto até que ele pareceu vir de baixo de nossos pés, nos alarmamos e nos preparamos para um possível ataque, porém não podemos prever o que viria. Um gigantesco verme das areias surgiu e assustou a todos, eu acreditei que aquele seria nosso fim, mas me enganei. Era só o início de nosso tormento. Na mesma velocidade em que ele surgiu ele voltou a se recolher no buraco de onde tinha saído, a areia sedia com nosso peso eramos tragados para dentro da terra. Um de nossos camelos foi devorado pela fera no primeiro ataque os outros desapareceram quando as areias nos carregavam para baixo. Novamente acreditei ser o fim e novamente me enganei.

Quando tudo acabou ainda estávamos vivos, mas agora em uma espécie de túnel, o local estava escuro, as areias que vieram conosco cobriam qualquer passagem que pudesse haver para o outro lado. Acreditamos que aquilo era o caminho que a besta que nos atacou fizera e isso nos deixou mais apavorados, apesar de termos perdidos nossos animais ainda conservávamos nossas provisões. Acendemos algumas tochas e começamos a andar, haveríamos de encontrar alguma saída, ou assim esperávamos.

Foram dias caminhando por túneis incontáveis, havia momentos em que inúmeros túneis se encontravam e ficávamos perdidos, nossas provisões eram poucas e mesmo racionando começamos a passar fome, ainda perdemos um companheiro, devido a ferimentos do primeiro ataque, o que nos deu alguma pouca comida a mais e colocou mais desespero em nossa situação, éramos agora três e continuávamos perdidos. Nos dias que se seguiram começou o pior, vários vermes da areia menores que o anterior nos atacaram, conseguimos algumas vitórias mas o último ataque levou mais um de nós. Agora dois caminhavam em desespero completo. Havia comida suficiente para um e não havia previsão para quando sairíamos dali, os túneis se revelaram um gigantesco labirinto e a fome e o desespero nos corroía. Meu companheiro já perdia a sanidade, quando decidimos fazer a última refeição ele me atacou dizendo que teria mais chance só, não sou um combatente, mas sei me defender, evitei a fúria insana com que me atacava e quando não havia mais para onde escapar vi o fim de minha vida se aproximar. Mas os deuses brincavam comigo e mais uma vez minha hora foi adiada.

Quando meu companheiro ensandecido se preparava para desferir o golpe que terminaria nossa peleja, aquela besta abissal que nos atacou no início disso tudo surgiu novamente pela parede arenosa do túnel em que estávamos e devorou o homem que me atacava. Me encolhi e fechei meus olhos, o medo tomou conta de mim e não me movi pelo que me pareceram horas. Quando abri os olhos o que vi foi nossa bolsa com as precárias provisões que sobraram, os restos de meu antigo companheiro e o túnel que a fera havia deixado quando o atacou, fui por ali. Caminhei por horas, ou até mesmo dias, não saberia dizer, tinha uma única tocha antes de entrar naquele caminho e ela se apagou horas depois que meu último amigo morreu na tentativa de me matar. Mas enfim eu cheguei em algum lugar, estava iluminado, se me recordo bem era um salão, archotes por todos os cantos forneciam luz, no centro dele havia um cadeirão e lá estava sentada a mais bela mulher que já vi, tinha pele albina e cabelos negros como a noite. Eu poderia sorrir com aquela visão, mas aos pés dela estava aquele imenso verme que nos atacou no início desta história e que me salvou a vida, mesmo que eu não acredite que isto foi proposital. A mulher falou comigo, disse-me que eu havia vencido o desafio e parecia divertida com aquilo, me apontou uma mesa e disse que eu poderia me servir à vontade. A fome me tirou a prudência e comi sem fazer delongas. Ela me contou que os vermes eram seus servos e que as vezes alguns viajantes caiam nos caminhos que eles faziam nos desertos e que poucos homens chegaram ali vivos, a maioria se perdia. Ouvia a tudo com uma cara de espanto. Mas talvez o cansaço de tudo aquilo ou algo que ela tenha colocado na comida me fizeram dormir profundamente.

Quando acordei já não estava naquele salão subterrâneo, estava em um oásis, ao meu lado haviam duas bolsas, quando as abri encontrei em uma meus pertences e a outra estava repleta de ouro. Peguei minha pequena bússola em minhas coisas, um presente de um sábio que conheci, olhei atento a direção que devia seguir, coloquei as bolsas em minhas costas e comecei a caminhar. Deixei o deserto dois dias depois parei numa vila e jurei que jamais andaria pelas areias novamente, aproveitei o ouro para pagar a melhor meretriz e a melhor cerveja que um homem poderia desejar naquele local, curiosamente escolhi uma mulher de pele branca e cabelos negros."

o bardo Byrdh "Língua Divina" - na taverna Senhora Pureza

A Meretriz Perneta

Havia uma taverna em Farol Corsário que não era bem um ponto de interesse, a clientela era a pior possível e as coisas ali servidas tinham uma fama tão medíocre que afastava qualquer possibilidade de novos frequentadores. A dona do local, uma mulher chamada Soraya, havia sido outrora uma pirata, mas fracassara mais terrivelmente nesta "profissão" do que como dona de taverna. Durante sua vida no mar um acidente fez com que ela perdesse uma de suas pernas e a substituísse por uma de madeira.

Os lucros de seu estabelecimento eram cada vez piores e já sem alternativas para melhorá-los Soraya decidiu fazer "trabalhos extras" com alguns clientes que desejassem, uma vez que nenhuma meretriz em todo Farol aceitou trabalhar na sua espelunca. Mesmo a prostituição não lhe trouxe ganho algum, em sua última cartada para salvar o local resolveu convidar um bardo para tocar no local. No início da apresentação ela viu que a falência era seu único destino, o bardo era mau visto na cidade, suas músicas não agradaram e mesmo utilizando de toda sua virtuosidade para tocar não foi bem recebido. Mas fora o único que ela pode pagar e nenhum outro aceitaria o serviço. O bardo se esforçava, mas era inútil, um pirata bêbado jogou na cabeça do bardo uma garrafa de rum, o músico acidentalmente chegou próximo demais de uma vela e acabou se incendiando, por um tempo não notou o que se passava e não parou de tocar, quando percebeu o ocorrido saiu disparado e saltou no mar, os risos dentro da taverna eram ensurdecedores e naquela noite Soraya vendeu todo seu estoque de bebidas. 

Aquele bizarro espetáculo foi um divisor de águas na vida de Soraya, a história do bardo flamejante trouxe novos clientes e o dinheiro da noite em que o músico se apresentou permitiu que ela comprasse bebidas melhores, o bardo virou um ícone do local e por muito tempo tocou ali, vezes ou outra acabava em chamas. Soraya contratou novas garotas para trabalhar no local e algumas fazem os serviços de quarto que antes somente ela fazia. Finalmente deu um nome a sua taverna  e "A Meretriz Perneta" se tornou uma das mais frequentadas tavernas de Farol Corsário.

Colaboração: Gabriel "Ló" Arantes

Samarah e os portais

"Diziam que as portas iriam se fechar um dia, mas nunca contaram que poderiam se abrir."                                                                                   
Já faz muito tempo, e os antigos não gostam de comentar sobre o assunto, mas houve um ano em que os homens foram desafiados a sobreviver nessas terras, meu filho. Conta-se que uma das mulheres do conselho, Samarah, decidiu deixar estas terras e sumiu por mais de cem anos. Quando voltou, continuava idêntica na aparência, mas seus olhos faiscavam. Trouxe com ele os portais do inferno, e após abertos, todas as aberrações que possam imaginar começaram a brotar de lá, e atacavam os homens e plantações.

Muitos morreram, meu filho, e alguns povos se estabeleceram no gelo após isso. Os elfos escuros, e os anões firmaram uma aliança nesta batalha, pois os seres já ganhavam força e avançavam sobre outras terras.Apenas assim pudemos derrotá-los. Apenas assim, juntos. Mas a Bruxa não foi derrotada, mesmo após roubarem todos os seus instrumentos de poder ela resistiu e fugiu pelas terras ermas.

Os sábios guardaram os objetos, e estes sumiram com o tempo. Um colar, especialmente, chama a atenção. Dizem que é ele quem abre os portais e atrais as bestas. Rumores da reabertura das portas já correram os continentes, mas nunca se confirmaram, por Balenna! Espero nunca mais ouvir falar delas.
Do diário de Sonn Yule - Ancião do Norte

Ya-Dunis - A cidade da tempestade

Shuntos era um estudioso da cidade de Dhunas, que se encontra no centro do Grande Deserto. Por toda sua vida ele tentou encontrar provas concretas sobre a localidade de uma antiga cidade  chamada Ya-Dunis, onde habitaram grandes sábios e, cujas lendas diziam, havia sido tragada pelas areias. Anos de pesquisa não lhe trouxeram proveito algum, tudo o que encontrara foram relatos que comprovavam a existência da cidade, mas não havia um mapa sequer que indicasse sua localidade. Vários outros estudiosos o tratavam com indiferença ou faziam piadas sobre suas pesquisas até mesmo Shuntos começara a perceber a inutilidade de tudo aquilo. Volta e meia se pegava com o pensamento "de que adianta saber da existência de uma cidade que esconde inúmeros conhecimentos se a cidade insiste em se esconder de mim", e acabou por deixar esse assunto de lado.

O crepúsculo caía sobre Dhunas quando Shuntos recebeu uma visita inesperada de um viajante misterioso que queria negociar um pergaminho, segundo ele muito valioso. Quando Shuntos tomou o tal pergaminho em suas mãos ficou maravilhado com o que leu, pagou ao viajante um bom preço pelo pergaminho, muito menos do que realmente valia, e o dispensou. Passou a noite debruçado diante do pergaminho o estudando. Apesar de muito do conteúdo estar apagado ali ele encontrou anotações da localidade de Ya-Dunis, informações de estudos que eram conduzidos e uma parte que informava sobre uma experiência que seria conduzida que poderia mudar para sempre os conhecimentos científicos e mágicos. Mas o mais intrigante era a nota final, que fora escrita as pressas. Eis o que havia nesta nota:

"... e algo não saiu bem, talvez a tempestade de areia que atingiu a cidade seja a culpa, ou talvez nós provocamos a tempestade. Não sei informar, não sabemos onde estamos, os ventos pararam mas agora tudo está escuro, muitos morreram..."

Shuntos leu e releu aquela parte inúmeras vezes. Só então se lembrou que deveria ter perguntado onde o viajante achara aquilo, procurou por muitas estalagens até achar o tal homem, o relato que ouviu o deixou mais intrigado. O homem que lhe vendeu o pergaminho contou que estava viajando pelo deserto quando de súbito veio uma tempestade de areia no qual ele acreditou que seria seu fim, mas pouco tempo durou e quando os ventos pararam ele estava diante de uma cidade que parecia ser antiga, não havia ninguém na cidade e ele encontrou o tal pergaminho no chão de uma casa cheia de livros, pouco tempo depois a tempestade voltou e ele estava fora da cidade já, novamente a tempestade foi curta e quando ele olhou para trás a cidade havia desaparecido. Quando questionado sobre o que mais encontrou o homem somente falou de jóias e tesouros, coisas que não tinham valor para Shuntos, ele queria o conhecimento. Shuntos encontrou outras pessoas que relataram o mesmo tipo de experiência e sempre havia a tempestade de areia. Quando ele apresentou diante dos outros estudiosos suas descobertas foi tratado como louco, mesmo o pergaminho foi encarado com descrença. Shuntos decidiu que iria ele mesmo viajar pelos deserto e encontrar tal cidade, organizou uma expedição e partiu. Nunca mais ele foi visto.

Anos se passaram depois disso até que um aventureiro que passava por Dhunas procurou os estudiosos, disse que tinha em mãos um pergaminho que deveria ser de interesse deles. Um dos mais velhos tomou o pergaminho na mão e o reconheceu, era o mesmo que uma vez Shuntos apresentara a todos, o aventureiro disse que o havia encontrado numa cidade vazia após uma tempestade de areia que pouco durou. Apesar dos escritos estarem muitos apagados uma pequena nota no fim do pergaminho era bem visível, estava escrito "eu encontrei".

Ecthelion e a Ailindalë

Ecthelion Leaflong e a Ailindallë
                                                   

Os elfos tiveram dentre seus  recentes mentores Ecthelion Leaflong, e este foi o guia dos elfos durante cerca de cem anos. Ele foi um dos mortos em batalhas na invasão orc recente que tomou a Cidade da Floresta, e pouco antes da batalha ele forjou "Ailindalë", uma espada especial, pois foi feita dos fios de cabelos de Aiundë e Liundawë, suas filhas mortas por orcs num ataque furtivo as cegas ainda em Annarion.
A espada não só o tornou mais forte, mas também continha em si uma chama diferente que ardia quando cortava a carne de orc, chegando a ficar em brasa cauterizante quando utilizada por ele.
Conta-se que Ecthelion a carregou  junto aos 100 quando estes baniram os orcs pela primeira vez, mas numa busca suicida dentro das matas terminou perecendo, não se sabe onde. Os orcs tomaram a Cidade da Florestas e a espada se perdeu, assim como qualquer coisa que ele carregasse consigo neste dia. 
                                                                   


" No interior de seu mais alto conselho, alguns dos elfos anciões resistiram espiritualmente, e são como a bruma dentro da floresta, aguardando para retornar"
                                                                               - Inscrição na Velha Folha, taverna de Lança do Mar